Eu tenho um flerte com a tristeza. Ela está mais presente do que imagino. De repente, como um mal súbito, ela está lá, ao meu lado. Eu tenho aprendido a conviver com ela, penso que talvez ela seja constitutiva da vida humana, nascemos fadados a ser tristes. E isso não quer dizer que somente exista espaço para esse sentimento, mas isso é conversa para outro momento. Dando nome a essa tristeza, posso citar duas bifurcações que me levam inevitavelmente a ela: nostalgia e desigualdades. Sobre a primeira, me dói pensar que certos momentos da minha vida nunca mais serão revividos. Talvez essa dor se deva ao fato de que aí está entranhada a fugacidade da vida, é a finitude estampada em meus olhos, e isso me incomoda, por mais que eu não goste de admitir. A segunda bifurcação se desvela quando me deparo com as desigualdades da vida. Sem rodeios, eu sei do meu lugar de privilégio social e existencial. Nasci sem nenhuma deficiência aparente ou relevante, sou branco, sou homem, tive condições econômicas para ter uma vida digna. Isso permite usufruir a minha tal finitude de uma forma mais ampla, mais tranquila e com menos exclusões ou discriminações. Mas nem todos estão em par de igualdade comigo, e isso me incomoda, inquieta. O ser humano é mau, não lida bem com a diferença, não lida bem com grupos minoritários (salvo algumas exceções). Nos foi concebida apenas 1 vida, até então, e essa vida acaba se tornando um fardo para algumas pessoas. Talvez assim eu tenha perdido meu amigo Manoel Rocha Neto. Homem negro, poucas horas após um episódio de racismo que com toda certeza não é isolado, cometeu suicídio. Manoel, enquanto eu viver, eu me esforçarei para que Ismália(s) sobrevoem em vida o céu, o mar e os lugares em que os sonhos chegarem. Sua passagem aqui não foi em vão. Enquanto isso, eu vou aprendendo a lidar com a tristeza, com a dor, com o vazio que fica e se acomoda depois de viver. Eu estou indo, eu estou me esforçando, alguns dias são difíceis, mas vou me acostumando com a ideia de olhar para o abismo e sorrir
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